segunda-feira, 6 de março de 2017

Jogar ao pião

Há uma "corda" que separa os tempos dos jogos do pião e a actualidade da febre do jogo League of Legends. Temos tido o gosto de visitar, com alguma frequência, um espaço da baixa portuense, o Doxa, conhecido por ser uma espécie de laboratório de gelados. Dali podem sair os sabores mais convencionais, mas também sabores inesperados, só possíveis de obter através da sabedoria obtida pelos proprietários junto dos mestres italianos. Para além desta saborosa descoberta, temos também a partilhar outra, para nós, mais surpreendente ainda: o Doxa tem uma equipa que compete num campeonato do jogo League of Legends e não se pense que a estrutura tem em vista o lazer, pois o objectivo assumido é a profissionalização, com a respectiva melhoria constante da performance dos seus elementos. Claro que todas estas informações fazem com que as conversas de café, por vezes, fluam e se façam pontes entre o presente e o passado, como é normal quando vem à baila o tema jogos electrónicos. Basta-nos recuar trinta anos para entendermos que a percepção de jogo mudou. Naquela altura, jogar seria associado a jogar ao pião, não havia escola que não tivesse aglomerados de jovens a ver quem partia, com mais espectacularidade, o pião ao outro. Na cidade de Porto, houve até escolas que proibiram o jogo tradicional, pois o constante atirar do pião ao solo começava a abrir crateras no pavimento alcatroado. Atirar o pião só para o ver girar era demasiado monótono, a piada estava em ver quem partia a peça ao adversário, este era o jogo que cativava realmente os jovens. Havia sempre quem arriscasse atirar o pião, numa zona mais recatada da escola, pois a vontade de mostrar a mestria era mais forte. Não interessava se o pião era mais ou menos corpulento, se tinha o bico mais ou menos afiado, o que fazia a diferença era a força do executante e a pontaria. Acertando em determinada área do alvo era certo que se lhe abriria uma rachadela e se provocaria o êxtase na assistência, para grande humilhação do adversário. Os piões das lojas de artesanato modernas são lindíssimos, cheios de cor e de texturas refinadas, mas torna-se inevitável, para quem viveu aquelas épocas passadas, imaginar como seria tê-los como adversários, como se comportariam ao levar com um lançamento certeiro em cima. Sorte a destes piões, hoje em dia o seu destino é representar a modernidade em colecções ou então servirão para os pais saudosistas explicarem aos filhos como se jogava ao pião. Claro, tudo isto antes dos filhos ambicionarem fazer carreira na área dos jogos electrónicos, aí, pais, esqueçam as tutoriais de jogos tradicionais. 



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